Universidade Federal da Bahia - UFBA
Processos
Psicológicos Básicos III – Motivação e Emoção
A
motivação e a experiência de fluxo na execução da leitura de figuras musicais rítmicas
por adultos não-músicos
Dalila
Machado
Ediney
Márcio
Lima
Jhonatan
Valdete
Salvador
Junho de 2012
Resumo
A Teoria do Fluxo proposta por
Csikszentmihalyi pressupõe que para se entrar em estado de fluxo é necessário
que duas variáveis estejam em perfeito equilíbrio. Tais variáveis são: o
desafio apresentado e as habilidades do sujeito. Ou seja, o sujeito entra em
estado de flow quando o desafio
apresentado a este é perfeitamente compatível com seu nível de habilidade.
Quando o indivíduo atinge esse nível dizemos que ele atingiu um nível ótimo
(estado de flow). É possível também
observar alguns estados emocionais associados ao estado de fluxo com a sensação
de competência e realização. Entretanto, é interessante observar que, se os
desafios apresentados forem maiores que as habilidades adquiridas pelo sujeito,
haverá alta probabilidade de se observar nos indivíduos testados sentimentos
como ansiedade e medo. Ao contrário, ou seja, caso as habilidades sejam
superiores aos desafios, haverá alta probabilidade de se observar no sujeito
sentimentos de tédio e apatia. A Teoria do Fluxo vem, ao longo do tempo, se
mostrando eficaz nas mais diversas áreas como educação, o desenvolvimento de
jogos eletrônicos e esportes.
Palavras-chave: Motivação; Teoria do fluxo; Nível ótimo;
Aplicação na prática da leitura rítmica.
Sumário
Resumo
Sumário
Introdução
Método
Resultados
Discussão
Referências bibliográficas
Anexos
INTRODUÇÃO
O comportamento humano constitui um tema que tem despertado a
curiosidade de muitos estudiosos. Neste contexto, pesquisadores buscam explicar
o que move as pessoas em direção a uma determinada ação e se tal motivação tem
causa interna ou externa. (REEVE, ...)
De acordo com Reeve existem quatro processos que energizam e direcionam o
comportamento, são eles: as necessidades, as cognições, as emoções e os eventos
externos. Nessa perspectiva, percebe-se que a motivação acontece a partir de
fatores intrínsecos e extrínsecos, e esses diferem tanto no que se referem à
qualidade quanto à quantidade.
Assim, várias teorias nasceram na esperança de responder os múltiplos
questionamentos sobre a motivação. Porém, nenhuma delas conseguiu dar respostas
a todas as indagações a respeito do comportamento e suas causas, visto que tal
tema abarca uma complexidade muito grande e envolve inúmeras variáveis. Neste
contexto, além das Grandes Teorias sobre a motivação, A Teoria da Vontade
(Descartes), A Teoria do Instinto (William James) e a Teoria do Impulso (Freud
e Hull), surgiram diversas miniteorias dentre as quais a Teoria do Fluxo (Flow Theory).
O presente trabalho teve como objetivo verificar e analisar a
experiência de fluxo, partindo de atividade ligada à aprendizagem musical tendo
como aporte a teoria do fluxo de Mihali Csikszentmihalyi (1975), sendo esta
conceituada por sua abrangência nos diferentes campos de saber e na
aplicabilidade dos conceitos e métodos.
O criador desta teoria, Csikszentmihalyi, iniciou seus trabalhos na
década x, no século XX através de entrevistas realizadas em diferentes países.
Sua pesquisa tem norteado práticas e experiências em diversos campos do saber,
dentre os quais podemos elencar: música, educação, esportes, programação de
jogos eletrônicos, entre outros.
De acordo com Csikszentmihalyi, o que caracteriza o estado de fluxo é o
perfeito equilíbrio entre duas variáveis: desafio e habilidade. Quando tal
equilíbrio ocorre, dizemos que o sujeito está em nível ótimo, o que confirma o
estado de fluxo. A experiência de fluxo, portanto envolve a motivação
intrínseca, que para Csikszentmihalyi é aquele estado no qual as pessoas estão
de tal maneira mergulhadas em uma atividade, que nada mais parece ter
importância. (CSIKSZENTMIHALYI, 1992, p.17)
Para que o estado de flow seja
alcançado determinadas características são verificadas:
1- Envolvimento completo durante a execução da
tarefa.
2- Perda da autoconsciência, que envolve um
estreitamento da interação com a atividade, provocando assim, um sentimento de
unidade e identidade com todos os elementos fundamentais para sua boa
realização. (ENGELMANN, Erico, 2010)
3- Feedback imediato
4- Percepção de que a habilidade é compatível
com a tarefa
5- Sentimentos positivos como serenidade e
satisfação
6- Alteração na percepção temporal
7- Experiência de que a atividade é extremamente
gratificante
O conceito de “experiência de fluxo”
desenvolvido por Csikszentmihalyi já foi utilizado em pesquisas na área de
música, especialmente nas linhas da cognição, aprendizagem e prática musical. Os
resultados de tais estudos favorecem o reconhecimento da relação entre os
elementos apontados nesta teoria e a aplicação destes na otimização da
experiência musical. (ARAÚJO, 2008)
OBJETIVO
O
objetivo desta pesquisa foi verificar o estado de fluxo de adultos não-músicos
ao realizar uma leitura de ritmo com três figuras musicais rítmicas básicas -
semibreve, mínima e semínima - apresentadas progressivamente ao longo de três
exercícios. Pretende-se, nesse estudo,
responder a seguinte pergunta: é possível adultos não-músicos entrarem em
estado de fluxo ao executarem uma tarefa de leitura de ritmo?
Os
resultados dessa investigação visam à identificação de elementos estruturais da
experiência de fluxo descritos por Csikszentmihalyi através dos relatos dos
participantes. Dessa forma, tem-se em vista a compreensão de que a Teoria do
Fluxo é um constructo relevante para se entender como a motivação direciona um
indivíduo adulto que não tem conhecimento de leitura de partitura a persistir e
direcionar sua atenção na execução de uma atividade musical rítmica com grande
concentração, interesse e envolvimento. Assim, este trabalho pode contribuir para
o reconhecimento do potencial da Teoria do Fluxo para uma prática de ensino e
aprendizagem, sobretudo no campo da educação musical (Araújo, 2012).
Inicialmente,
tem-se a hipótese de que os participantes vivenciariam a experiência de fluxo
quando o nível de habilidade fosse compatível com a complexidade da tarefa
apresentada. Assim, após realizarem um treino para o reconhecimento de três
figuras musicais rítmicas básicas, o participante se sentiria desafiado a
executar as tarefas por sentir-se habilitado a acompanhar todos os exercícios.
Método
Participantes
A amostra foi composta por 10 adultos não-músicos, sem
qualquer conhecimento relativo à leitura de partitura, cuja faixa etária variou
de 20 a 50 anos. Nenhum participante teve contato anterior com a circunstância
experimental proposta. Entre os
participantes, 50% eram do sexo feminino (N=5) e 50% do sexo masculino
(N=5).
Ambiente
O experimento foi
aplicado nas dependências da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA
(Universidade Federal da Bahia). Em uma das salas de aula do PRS (Pavilhão Raul
Seixas), caracteristicamente quadrada, coberta, com pouco ruído ou qualquer
perturbação externa. Era um dia de outono, com sol, com temperatura em torno
dos 27 graus Celsius. Havia um considerável silêncio no recinto.
Materiais e instrumentos
Para a
realização do experimento, foi utilizado o software
EarMaster Pro 5, que é um programa
para treino auditivo que tem como
objetivo o desenvolvimento da capacidade de reconhecimento de sons, ritmos e
harmonias. O programa contém doze grupos de exercícios voltados para percepção
musical. Para esta pesquisa, foi selecionado no referido software o grupo que trata da leitura de ritmo. Os exercícios foram escolhidos realizando-se
os seguintes passos: na tela inicial do programa, no quadro “Modo de treino”,
marcou-se a opção “Exercícios personalizados”, em seguida clicou-se em “Exercícios”
na barra de menu, logo após foi selecionada a opção “Leitura de ritmo”, para
enfim ser feita a configuração da primeira tarefa na janela “Editor de exercícios. Para mudar o
exercício, segue-se a opção do menu “Definição
de Exercícios” e novamente clica-se em “Editor de exercícios”. Incluíram-se em cada etapa do exercício
apenas figuras musicais rítmicas básicas ( semibreve, mínima e a semínima) sequenciadas ao longo de
quatro compassos quaternários, com tempo de 60 bpm. Não foram
inseridas pausas, ligaduras, colcheias nem semicolcheias. Este software foi rodado em um computador
tipo netbook com processador de 1.66GHz,
2GB de memória RAM, sistema operacional Windows 7 Starter.
Procedimentos
Para a realização do experimento, foram convidados
adultos não-músicos que declararam não ter tido experiência prévia com leitura
de partitura. O conteúdo das tarefas e o software
EarMaster Pro 5 foram prévia e respectivamente avaliado e indicado por um expert em música que atestou a
viabilidade da realização do experimento com leigos.
Foi explicado aos participantes que a atividade havia
sido proposta no curso da disciplina Processos Psicológicos Básicos III do Instituto
de Psicologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), semestre 2012.1 e que se
tratava de uma tarefa de reconhecimento visual e sonoro de figuras musicais
rítmicas básicas. Também foi-lhes assegurada a confidencialidade dos dados e a
sua não identificação na pesquisa. Após essa abordagem inicial e considerando suas
declarações sobre o não conhecimento relativo à leitura de partitura, os
participantes foram consultados sobre a disponibilidade e interesse em fazer um
treinamento prévio, com duração média de 5 a 10min, antes de receber as
instruções para a execução de uma tarefa com três etapas que lhe seria apresentada
posteriormente pelos experimentadores. Assim, o momento que antecedeu a
aplicação do experimento consistiu em treinar os participantes para realizar
uma leitura rítmica, através do reconhecimento visual e sonoro de três figuras
musicais básicas (semibreve, mínima e semínima) ao longo de quatro compassos
quaternários utilizando-se para isso o software
EarMaster Pro 5.
O experimento foi aplicado por dois
experimentadores, um deles foi previamente treinado para fazer a seleção dos
exercícios no programa enquanto que outro experimentador fazia a leitura das
instruções para fins de padronização da aplicação. A título de esclarecimento,
não foi utilizados os termos técnicos para as notas musicais, tendo em vista
que o critério de inclusão para o experimento seria não ter experiência em
leitura de partitura. Sendo assim, as notas foram apresentadas como símbolos e
as instruções dadas por escrito. Além disso, foi
necessário ler as instruções para os participantes explicando, reexplicando e
exemplificando antes do experimento, de forma a não ficar nenhuma dúvida quanto
a execução. Ainda assim, os participantes foram orientados a manifestar
quaisquer dúvidas pedir esclarecimentos aos experimentadores.
Dois experimentadores
aplicaram o experimento e um terceiro experimentador ficou encarregado de
registrar o procedimento. O participante era convidado a sentarem-se na
cadeira, as instruções eram repassadas e a aplicação do estudo começava. Após o
experimento, foi dado um questionário aos participantes com diversas questões
(vide anexo).
RESULTADOS
Um dos objetivos da presente pesquisa foi investigar se
adultos não-músicos sentem-se motivados e desafiados a realizarem pela primeira
vez uma leitura de ritmo a ponto de alcançarem um estado de fluxo.
Tabela
1. Exercício considerado mais fácil
pelos participantes e o motivo pelo qual assim é considerado.
Participante
|
Exercício/
Leitura de
Ritmo
|
Motivo
|
A
|
1.º
|
Acompanhou a marcação da figura musical seguindo o
som mais forte.
|
B
|
1.º
|
Tinha um só tipo de figura musical e a quantidade
era menor.
|
C
|
1.º
|
Tinha apenas uma figura musical.
|
D
|
1.º
|
Tinha apenas uma figura musical e era possível acompanhar
o som, sem precisar memorizar o desenho da figura.
|
E
|
1.º
|
A figura musical tinha mais tempo para contar do
que as outras.
|
F
|
1.º
|
O exercício que me exigiu menos atenção.
|
G
|
3.º
|
Porque já tinha a prática dos exercícios
anteriores.
|
H
|
1.º
|
Foi mais fácil assimilar o tempo da figura musical.
|
I
|
1.º
|
Havia um intervalo de tempo maior para fazer as
marcações da figura musical.
|
Tabela 2. Exercício considerado mais difícil pelos
participantes.
Participante
|
Exercício/
Leitura de
Ritmo
|
Motivo
|
A
|
2.º
|
Teve que pressionar a barra de espaço
alternadamente nas batidas fraca e forte.
|
B
|
3.º
|
Mais desafiador.
|
C
|
3.º
|
Tinha três figuras musicais.
|
D
|
3.º
|
Exercício com três símbolos, exigência de maior
concentração.
|
E
|
3.ª
|
Conciliar todas as regras aprendidas no mesmo
exercício.
|
F
|
2.º
|
Necessidade de maior concentração para fazer a
marcação do tempo.
|
G
|
3.º
|
Presença de três figuras musicais no mesmo
exercício.
|
H
|
3.º
|
Aumento da sequência de figuras musicais.
|
I
|
3.º
|
Maior alternância de ritmo.
|
Tabela 3. Exercício que os participantes mais gostaram
de executar.
Participante
|
Exercício / Leitura de Ritmo
|
A
|
3.º
|
B
|
3.º
|
C
|
3.º
|
D
|
3.º
|
E
|
2.ª
|
F
|
3.º
|
G
|
1.º
e 2.ª
|
H
|
3.º
|
I
|
3.º
|
Tabela 4. Exercício que os participantes menos gostaram
de executar.
Participante
|
Exercício /
Leitura de Ritmo
|
A
|
2.º
|
B
|
1.º
|
C
|
3.º
|
D
|
1.º
|
E
|
---
|
F
|
2.º
|
G
|
1.º
|
H
|
---
|
I
|
3.º
|
Tabela 5. Exercício que os participantes menos gostaram
de executar.
Participante
|
Exercício /
Leitura de Ritmo
|
A
|
2.º
|
B
|
1.º
|
C
|
3.º
|
D
|
1.º
|
E
|
---
|
F
|
2.º
|
G
|
1.º
|
H
|
---
|
I
|
3.º
|
ANEXOS
Software
EarMaster Pro 5