Trans-Sinfonia
O intinerário era Vale dos Rios-Barra, com todos os vai e vem e volta e
não vai... e não vai... e não vai... e vai indo... mais um
pouquinho...ao rítmo invisível de Martinho da Vila, rítmo esse
amplamente adotado, desenvolvido e divulgado no seio do trânsito
soteropolitano. A melodia martiniana se intensifica, ganhando tons
agudos ou graves a depender da configuração das nuvens que parecem
aderir e exaltar o movimento geral da cidade.
Na verdade, esses aglomerados cinzentos de potenciais catastróficos
imprimem seu próprio movimento ou não-movimento às óticas enclausuradas,
nos seus carros. Não o movimento veloz, quando descem de seus tronos
celestiais, mas aqueles goticulares vítreos ( as gotinhas se condensando
no vidro, morosas, despreocupadas).
Eu observava tudo isso do famoso R3 rumo ao campus florestal ondinense.
Talvez a preservação da mata auxilie as ciências biológicas... De
qualquer modo, aquelas gotas se acumulavam tediosas na janela, quando um
som peculiar me desvia a atenção... sanfona? Sim, era uma sanfona com
direito a batucada de tambor! Por um instante acreditei que o São João
havia retornado, apesar das feições pouco simpáticas de alguns ouvintes,
atípicas no São João. O som era até agradável, o cantor nem tanto, mas
sua voz se arrastava junto ao espalhar das águas nas janelas. Tudo ia
mais ou menos bem até os vizinhos nos seus autoimóveis resolverem
contribuir com o som mais alto ao seu alcance...
As buzinadas irrompem na atmosfera chuvosa e invadem dissonantes a
harmonia junina que tentava se estabelecer no sistema auditivo. Não sei
bem se existe conflito entre os sons ou se eu imaginei tudo isso, graças
à dificuldade do cérebro em decodificar tantas "harmonias" distintas...
Harmonias no Plural maiúsculo, porque não podemos esquecer do
burburinho comunicativo e das pessoas na rua, tentando ganhar a vida
precariamente. Nesse momento, entro numa crise existencial, pois tento
abstrair tudo quanto seja possível, me aproximando de um estado
meditativo-anestésico. Mas... como só Jesus salva, a meditação durou
pouco.
A palavra de Deus me despertou com seu discurso arrebatador, pra não
dizer sacudidor das entranhas do ser com foco especial no já castigado
ouvido. Não sei se Jesus enunciou "gritai e orai"... (talvez seja um
texto suprimido dos evangelhos ou, quem sabe, o nascimento de uma
heresia que eu poderia batizar de enfaticismo, afinal os acadêmicos
necessitam desses conceitos bem elaborados para seu próprio bem). Seja
como for, meus ouvidos atingiram o nirvana devido à ressonância
ininterrupta e insistente da palavra divina. O ônibus passava pelo
transbordo que estava sendo batizado pelo ar ( pela água já está
ultrapassado). A banda junina desce do seu palco móvel ( coisas da
modernidade de recriar contextos e resignificar espaços) e, quando penso
em me concentrar na melodia da chuva, eis que o pessoal é convocado
para exercer seu papel de consumidores no capitalismo emergente das
classes C, D e Etc.
Boa noite, pessoal! Desculpe incomodar o silêncio da viagem que vocês
devem estar fazendo com esse texto, mas, pessoal, chegaram aqui as
deliciosas palavras mgenianas, esse texto que “cês” acabaram de ler.
Agora, eu vou recolher e aqueles que tiverem interesse, aqui na minha
mão, é apenas 1R$, na promoção! Perpétua promoção, diversão é o
passatempo da viagem, pessoal!
O trânsito pode ser lento, mas a cidade continua agitada e meus pensamentos seguem essa Trans-Sinfonia.
Mg
Até o próximo post!
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